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domingo, 4 de dezembro de 2016

Que tal um passeio na feira do rolo?

A feira do rolo em Caraguatatuba é uma boa pedida para quem gosta de bisbilhotar curiosidades e matar um pouco do tempo de uma maneira diferente

A feira acontece todo domingo na rua Rio Grande do Norte, na entrada do Tinga. Lá se encontra de tudo, desde uma torneira quebrada, que não serve para absolutamente nada, a modernos aparelhos eletrônicos, passando por discos de vinil, equipamentos de pesca, controles remotos de todo tipo, livros velhos, panelas com tampa e sem tampa, roupas novas e usadas, ferramentas enferrujadas, facas sem corte, sapato de um pé só e uma série de curiosidades.
Também se toma um refrigerante gelado, caldo de cana, ou se degusta uma tapioca, em meio à movimentação das pessoas que já se habituaram todo domingo a comparecer à feira, como num ritual. Sempre se encontram pessoas conhecidas, algumas carregando bugigangas nas mãos, arrematadas a preços de banana. Outras fingem que apenas “visitam” o local, mas acabam denunciando a sua cobiça ao não resistir a um ou outro apelo e fazem a sua oferta.

Não se pode dizer que o que mais seduz o curioso e provável comprador seja o preço. O preço realmente é tentador em inúmeras oportunidades, daí a desconfiança de muitos de se tratar eventualmente de objetos roubados. Mas não é bem assim. É a raridade e a singularidade de certas peças que aguçam o desejo de muitas pessoas, às vezes uma simples peça de decoração jamais encontrada em outro lugar qualquer.

Na verdade, a maioria das pessoas lá comparece para exercer o papel de uma espécie de “garimpeiro de raridades”. E por ser raridades, também valiosas principalmente para colecionadores. Um rapaz, outro dia, estava eufórico, pois conseguiu comprar um livro escrito por Paulo Machado de Carvalho relatando todos os detalhes dos bastidores da Copa do Mundo de 1958, aquela que lançou Pelé aos 17 anos para o estrelato futebolístico. Detalhe: o livro estava autografado pelo autor, que empresta seu nome para o Estádio do Pacaembu em São Paulo e foi o fundador da TV Record.
 
Você se lembra da imponente Enciclopédia Barsa? Há algumas dezenas de anos, antes do advento da internet, quem tinha uma coleção dessas em casa podia se considerar um felizardo. Garantia de confiável fonte de pesquisas escolares para os filhos. Hoje, muitas pessoas ainda possuem essas coleções dentro de casa, que na verdade apenas atrapalham pelo espaço que ocupam. Nenhuma criança ou jovem, acostumado às facilidades do computador, quer saber de Barsa alguma.

A enciclopédia, tão cobiçada no passado, perdeu o seu glamour, assim como outras do gênero, como a Mirador e a Caldas Aulete. Hoje, ela é encontrada na feira do rolo, em qualquer banca, vendida completa ou por volume. Um desaforo para muitos quarentões e cinquentões que chegaram a pagar uma nota preta, em prestações, para ostentar tais livros em sua biblioteca e assim esnobar ares  intelectuais.

O que se vê ali chega a ser um convite à reflexão acerca da futilidade das coisas materiais e da própria condição humana. Tudo passa nesta vida. O que se observa ali indica que os tempos são outros, que a vida mudou certamente para melhor. É dando, portanto, uma voltinha na feira do rolo que se constata que o tempo passou sem que nos déssemos conta dele...

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O Bem e o Mal existem. Só é preciso saber escolher...

Editorial do jornal “A Melhor Idade”, que circula em Caraguatatuba-SP, Brasil, edição do mês de setembro/2016:

“Meu bem, meu mal

O Brasil é mesmo uma terra de contrastes. Mal acabamos de nos deslumbrar com a abertura dos Jogos Olímpicos, com o desempenho de nossos atletas, as solenidades de encerramento --e o mais importante, sem incidentes diante de uma expectativa ruim--, e de um saldo considerado positivo do pós-olimpíada, embora haja alguns senões, e eis que a nação inteira se depara agora com uma lavação de roupa suja que pode apear do poder um presidente da República e talvez implodir o partido mais organizado e “religioso” que o país já teve, produzindo um efeito cascata de quedas e condenações.

O carro-brasil acelera de zero a cem em uns poucos segundos. Só que entre o parado e o acelerado, o custo é muito alto para os brasileiros pagarmos. Embora a nossa parcela de culpa nesses escândalos seja pequena, de forma indireta, omissiva, como aceitadores e conformados com tudo, simbolizado pelo voto dado sem questionamentos ou análises mais profundas, de certa forma bem que merecemos esse governo que aí está, conforme repetidas vezes dizem por aí.

O povo brasileiro sempre foi enganado. É e o será pelas décadas que virão. A transformação tão esperada é algo que exigirá muita prudência, pesados investimentos em Educação e principalmente ação vigorosa acerca de tudo que se construiu e se pensou até hoje. A irresponsabilidade de dirigentes ladravazes e a mansidão dos bons não têm mais lugar neste Brasil de proporções agigantadas. Mas é um caminho tortuoso, cheio de armadilhas, envolvendo gerações e mudança de costumes já enraizados na cultura popular, como a maldita tolerância ao “rouba, mas faz”.

Quando este texto for publicado já estaremos conhecendo o desfecho do julgamento pelo Senado, cassando o mandato da presidente ou perdoando os seus deslizes, acoimados de pedaladas, socos e pontapés em tudo e em todos. Qualquer que seja o resultado, caberá a nós darmos um novo rumo a esta Nação, chutar a bola pra frente, acelerar fundo, inspirar os puros ares desta terra e, munidos de muita creolina, escovões e que tais, partir em busca das transformações por tantos almejada.

Como o ladrão, assassino, e o monge, o Bem e o Mal existem. Só é preciso saber escolher. E a escolha já começa no dia 2 de outubro.”

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

É o lobo...

O texto abaixo veio de um leitor do Caraguablog. Por acharmos pertinente, estamos reproduzindo, e o mesmo faremos com textos de opiniões divergentes que sejam encaminhados a este espaço eletrônico. Envie-nos a sua opinião e participe do debate:

A notícia da renúncia do prefeito Antônio Carlos na quinta-feira, 17 de dezembro de 2015, poderia ter caído como uma bomba por sobre as cabeças dos pobres mortais que compõem a urbe caraguatatubense. Poderia, não fossem as circunstâncias.

O prefeito já fez isso no ano passado [2014], também no mês de abril. Anunciou que iria pendurar as chuteiras e depois acabou voltando atrás e decidiu ficar. Ninguém entendeu nada, as explicações não foram convincentes. O que rolou, de fato, talvez nunca se saiba.

Pressão política para receber as atenções do governador Geraldo Alckmin? Talvez, sim; talvez, não.

Agora, a decisão da renúncia volta à baila, anunciando um novo “abril de despedida”. Contudo, pela experiência, é bom que se tenha cautela, muita cautela. Novamente, o cordeiro pode estar anunciando a presença de um lobo que não existe.

Acreditando no que via na imprensa, o então presidente da Câmara Neto Bota, entusiasmado com a ideia de virar prefeito meio que no tapetão, acabou se queimando e teve de amargar a recomendação seca de Antônio Carlos: guarde o seu terno, pois não será desta vez.

Que motivações teria o comandante-em-chefe da cidade para atirar-se às águas, abandonando o barco? As declarações de “é processo, é não sei o quê, uma série de coisas que fica difícil você tocar... não é fácil” soam como frases perdidas e vagas de conteúdo, mais ainda de satisfações aos eleitores.

Se é verdade que todo homem ambiciona o poder, fica complicado de entender como que alguém, tendo-o sob seu domínio, precipite-se em abrir mão de situação tão cobiçada. Há de existir um motivo muito forte para isso e ninguém espera do alcaide uma reedição do “diga ao povo que fico”.

A questão, por sua gravidade, não permite que tudo volte a ficar no dito pelo não dito. A cidade pára com um simples anúncio desta natureza. A classe política local entra em parafuso, principalmente às vésperas de uma eleição para a escolha dos novos mandatários dos poderes municipais.

Os funcionários de seu staff, encarregados de implementar as políticas públicas, ficam perdidos e não sabem se vão ou se ficam em meio às muitas indagações; o trabalho entra em compasso de “descompasso”; a marcha desacelera diante das indefinições, ainda que o sucessor prometa não tocar nos rumos já traçados.

Não resta dúvida que a troca de comando a esta altura do campeonato será prejudicial aos interesses o município. Não foi bom quando a Câmara resolveu cassar o então prefeito José Bourabeby e de nada adiantou os vereadores “se arrependerem” em seguida, pois a caca já estava feita.

A substituição não foi bom no passado e certamente também não será bom agora. Pelo sim, pelo não, é aconselhável que o presidente Chininha deixe para expor o seu terno aos raios solares somente quando tiver em mãos um documento de renúncia escrito, assinado, datado e lido em sessão.

Jorge Domingues Dilausi

Por e-mail

FUI...



SERÁ QUE FUI?



NÃO FUI - FIQUEI...

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A importância do rabo para o cãozinho

Pedimos licença ao Jornal da Hora, editado na cidade de Bertioga-SP e que circula também nas cidades do Litoral Norte (Caraguatatuba, Ubatuba, São Sebastião e Ilhabela), para reproduzir um texto publicado em sua edição nº 375, de 19 a 25 de setembro/2015, intitulado “O Código do Rabo”, na coluna especialmente dedicada aos animais.

O texto é muito interessante e aborda algo que muita gente ainda desconhece: a importância do rabo para o cão. A ignorância é tanta que as pessoas optam por cortar o rabo no animalzinho logo quando ele nasce, mutilando-o, num verdadeiro ato de agressão em nome da estética.

A coluna dedicada aos animais é fixa no jornal e assim se identifica: “Este espaço é dedicado aos animais e sua integração  com a natureza; suas características, hábitos, comportamentos, interação e dependência  das ações humanas.”

Eis o texto:


O código do rabo

A linguagem corporal através do posicionamento e movimento do rabo (ou cauda) é bastante peculiar e importante entre os mamíferos. Na natureza, associada a vocalizações e outros indícios físicos como eriçamento dos pelos, postura das orelhas e arqueamento das costas, ela indica e denuncia as intenções e o humor do bicho favorecendo a harmonia ou o combate.

No caso dos cães domésticos, a única diferença é que eles usam a mesma linguagem conosco – e nem sempre a interpretamos da maneira correta. Não há cão imprevisível nem traiçoeiro, há somente humanos ignorantes ou "distraídos": o cão sempre mostra a sua disposição, mas se não o compreendemos ou não percebemos os seus sinais a culpa não é dele.

São muitas as variações, e nem sempre um rabinho abanando é sinal de alegria ou aceitação de amizade. Rabinho feliz é aquele abanado numa linha de 180° em relação ao dorso, e quanto mais rápido, mais feliz! Rabo baixo, abanando devagar pode significar tanto insegurança –ele, cão, tem boas intenções, mas está na dúvida em relação às intenções alheias– quanto submissão. 

Rabo levantado e durinho demonstra atenção focalizada (agradável ou não), se levantado e abanado devagar o alerta do cão está no auge, e se esse mesmo posicionamento for acompanhado de postura da cabeça para olhar oblíquo e pelos eriçados o cão está pronto para atacar ou reagir. 

O rabo entre as pernas, que na natureza serve para encobrir a glândula anal e manifesta a vontade de passar despercebi- do, denuncia insegurança máxima e/ou muito medo; neste caso, também há o risco de uma resposta agressiva por pavor.

Procurar entender as mensagens enviadas pela linguagem corporal de seu animal de estimação ajuda muito na convivência com a família, no ensino das regras da casa (adestramento informal) e de eventuais problemas de saúde ou socialização.

Animais nunca mentem nem são hipócritas, são duas impossibilidades biofisiológicas para eles, o que evita muitos dissabores. É uma lástima que os humanos não tenham uma cauda longa e aparente...

"Imagine agora um mundo em que os humanos tivessem o tempo todo um apêndice incapaz de fingir o que não está sentindo."

sábado, 19 de dezembro de 2015

A grande árvore: presságio ou delírio?

Recebemos o texto abaixo, via e-mail, em julho deste ano. Agora, repassando as matérias do blog que pudessem ser publicadas, decidimos trazê-lo a público e à intepretação do Leitor. Não entendemos muito bem o seu conteúdo à época, talvez nem agora, parecendo algum sonho, até delírio, quem sabe uma premonição. De qualquer forma, parece-nos muito interessante, sombrio, sinistro, cabendo ao leitor julgá-lo.  

Em algum lugar...

Em algum lugar, em uma floresta, apareceu uma árvore que se tornou dominante e transformou o lugar onde vivia. Embaixo de seus longos galhos e folhas, como impediam a entrada da luz do sol, nada crescia, nada florescia.

Diziam, alguns empirescos cidadãos, que a tal árvore crescia muito por dois motivos: os nativos não tinham conhecimento do poder da exótica árvore;  ela crescia porque o local era privilegiado, com muita água pura e sais minerais, tudo o que de bom existia; para muitos, valores que somente poderiam se comparar ao ouro.

A árvore era muito admirada e reinava imperiosa, sem que qualquer outra muda, endêmica ou mesmo exótica, se atrevesse a lhe “fazer sombra”, pois não conseguia atingir a luz do sol, que era tapada pela grande copada que a árvore tinha.

Essa situação perdurou por longos anos até que, por força de providência legal ou divina, a árvore se viu obrigada a se deslocar, pois seu peso era tanto que a lei da gravidade a obrigou a se inclinar e olhar as outras mudas, talvez para escolher uma que pudesse substituí-la, dando espaço para que a luz do sol penetrasse e atingisse as pequenas, nanicas e sedentas de provar do mesmo mel. Queriam crescer.

Por ser exótica e praticar ações diferentes das que por aqui se praticavam, os moradores tinham medo de que as mudas nativas adquirissem seus hábitos e viessem a praticar as mesmas ações após crescerem.

De certa forma, era com grande preocupação que a população (não confundir população com mudas que queriam crescer) aguardava o desenrolar desta história, já que onde esta árvore vivia sofria tamanha transformação que não se sabia quanto tempo seria necessário para devolver ao local sua verdadeira identidade, inclusive não se sabia se a população, antes calma e tranquila, poderia recuperar seu “in statu quo ante bellum” e voltar a ser normal, como era antes da “guerra”.

Existia também a preocupação de que a árvore, muito esperta, desse continuidade ao seu reinado por intermédio de uma muda qualquer que, antes pequena, pudesse reunir possibilidades ao ser estercada, enxertada e preparada para dar continuidade ao pseudo progresso que por lá pairava.

Diziam alguns que a dita árvore não queria mais saber de reinar, pois já reinara bastante e agora somente queria colher seus frutos muito bem plantados e criados.

Diziam também que o acontecido era apenas o começo, e que de agora em diante é que a arvorezona deveria reinar, apenas coordenando mudas que sempre viveram sob sua tutela.

Diziam que a arvorezona precisaria dos serviços das mudas que viessem a ocupar o seu lugar. Alguns até indagavam se árvore, ao se tornar absoluta, não teria cometido algum crime ambiental.

Diziam coisas e mais coisas. Diziam. E diziam muito. Diziam tudo isso, a respeito de um lugar qualquer, onde havia uma arvorezona...

Oduvaldo Jorge de Siqueira

Por e-mail

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Tenho saudades do PT

Escrito por Rubem Alves
Estou triste. Perdi as esperanças. Escrever, que sempre me foi um motivo de alegria, agora é coisa que faço me arrastando. Penso que o melhor seria parar de escrever. Vinicius se referia à sua "inútil poesia". Poesia é inútil. Os poetas são fracos. As fórmulas dos demagogos são mais palatáveis. Escrevo inutilmente. Minhas tristezas são duas.

Hoje escreverei inutilmente sobre a primeira: minha desilusão com o PT. O nascimento do PT anunciou a possibilidade da esperança: fazer política de um outro jeito, combinando ética, inteligência e a opção preferencial pelos pobres. O PT fazia lembrar os profetas do Antigo Testamento que denunciavam os ricos que exploravam os trabalhadores sem jamais fazer alianças espúrias. Aí o rosto do profeta começou a apresentar rachaduras...

Era a ocasião do plebiscito para decidir entre presidencialismo, parlamentarismo ou monarquia. O Lula e o Genoíno eram a favor do parlamentarismo. As bases do PT foram consultadas. E elas votaram pelo presidencialismo. O Genoíno engoliu o sapo e se calou. Fez silêncio obsequioso, como diz o cardeal Ratzinger. Mas o Lula não demonstrou desgosto. Engoliu o sapo que as bases lhes impunham como se fosse uma rã frita com arroz e se tornou loquaz em defesa do presidencialismo...

Fiquei estupefato, curioso sobre os processos mentais que operavam na sua cabeça para que se esquecesse com tanta facilidade das convicções de véspera. Como psicanalista, eu ignorava qualquer caso de amnésia parecido. Intrigou-me clinicamente a forma como funcionava a cabeça do profeta, tendo-se em conta que não há caso na literatura religiosa de profeta que amoldasse suas convicções em obediência às bases...

E então me perguntei: "O que é mais terrível? Ser silenciado pela violência de um ditador inimigo ou ser silenciado por ordem dos companheiros?" Ah! Também os companheiros podem ser repressores...

A unidade do partido exige que todos brinquem de "boca-de-forno": todos têm de pensar igual. O diferente é expelido. Como na igreja. Compreendi que eu nunca poderia me filiar ao PT porque, se há uma coisa que prezo, é a liberdade para dizer o que penso, ainda que eu seja o único a dizê-la. O tempo passou. Veio o escândalo do "caixa dois" do PT.

O profeta, que afirmou ignorar tudo, deveria ter falado palavras de fogo contra os corruptos. Ao contrário, num fórum internacional, na França, não só admitiu o fato como também o justificou: isso é normal no Brasil... Agora, o inimaginável: uma fotografia do presidente Lula cumprimentando sorridente o possível "companheiro" Orestes Quércia. Anunciava-se ali o início de um possível noivado...

Para aumentar o meu espanto hoje, quando escrevo, vi uma foto do presidente Lula alegre e sorridente apertando a mão do "companheiro" Newton Cardoso, famoso ex-governador de Minas Gerais. O profeta brinda com os falsos profetas... De fato, só pode ser um caso de amnésia... Os meus queridos amigos petistas que me perdoem. Meu estômago tem limites.

Há um ditado que diz: "Pássaros com penas iguais voam juntos..." Concluo logicamente: "Se estão voando juntos é porque suas penas são iguais".

Vocês não têm saudades do PT? Eu tenho.

Comentário meu:
Este texto foi escrito pelo meu querido professor Rubem Alves em Setembro de 2006, mas continua atual porque o PT daquela época é o mesmo PT da época de hoje: um partido como todo partido que troca projeto de Brasil por projeto de Poder.

Eu sou contra o Impeachment por ainda não estar convencido de que há crimes e convicto de que não pode haver impeachment se o fato aconteceu em mandato anterior - mas estes são pontos que podemos discutir noutros momentos.

O fato é que politicamente - no sentido mais nojento do termo política/politicagem - não vejo muita diferença para o Brasil se o PT sair e o PMDB entrar. Eu sei que alguns do PT irão dizer que "se tá ruim com o PT, imagina com o PMDB", mas, contra este argumento cínico, nenhum contra-argumento é melhor que este: Se o PMDB é ruim então por que o PT se juntou? A lógica de escolher um vice é escolher alguém que pensa parecido, que a gente confia para nos substituir... Ou eu estou sendo ingênuo? (ironic!)

Como disse o saudoso Rubem Alves: Passarinho que voa junto é porque tem as penas iguais - e pra mim chega de tanto passarinho junto voando no Congresso Brasileiro.

E antes que eu me esqueça, já que agora fico de férias: Desejo a todos um feliz Natal e um próspero ano novo. Que 2016 seja um ano de paz e coragem.

"Sejamos realistas: façamos o impossível" (Comandante E. Che Guevara) – Wagner Francesco – Nascido no interior da Bahia, Conceição do Coité, formado em teologia e estudante de Direito. Pesquiso nas áreas do Direito Penal e Processo Penal. facebook.com/wagnerfrancesco

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Japonês da Federal vira herói nacional e ganha marchinha carnavalesca

Ai meu deus, me dei mal / Bateu à minha porta o japonês da Federal...

[vídeos – 2]

Curta a Marchinha em fotos


Curta a marchinha em vídeo


“Ai meu deus, me dei mal / Bateu à minha porta o japonês da Federal / Ai meu deus, me dei mal / Bateu à minha porta o japonês da Federal

Dormia o sono dos justos / Raiava o dia eram quase seis / Escutei um barulhão / Avistei o camburão / Abri a porta e o japonês então falou / Vem pra cá / Você ganhou uma viagem ao Paraná

Ai meu deus, me dei mal / Bateu à minha porta o japonês da Federal / Ai meu deus, me dei mal / Bateu à minha porta o japonês da Federal

Com o coração na mão / Eu respondi: o senhor está errado / Sou trabalhador / Não sou lobista, senador ou deputado

Ai meu deus, me dei mal / Bateu à minha porta o japonês da Federal / Ai meu deus, me dei mal / Bateu à minha porta o japonês da Federal

Dormia o sono dos justos / Raiava o dia eram quase seis / Escutei um barulhão / Avistei o camburão / Abri a porta e o japonês então falou / Vem pra cá / Você ganhou uma viagem ao Paraná

Ai meu deus, me dei mal / Bateu à minha porta o japonês da Federal / Ai meu deus, me dei mal / Bateu à minha porta o japonês da Federal”



Aquele japonês que aparece durante as prisões feitas pela Polícia Federal na operação lava-jato está sendo “endeusado” como um agente a serviço da Justiça, prendendo bandidos e prestando um grande serviço à Nação, cansada já e até angustiada diante de tantos casos de corrupção e de rapinagem de milhões de reais dos cofres públicos.

Aquele japonês é o agente Newton Ishii, chefe do núcleo de operações da Polícia Federal de Curitiba-PR. Ele aparece como herói e até ganhou uma marchinha de carnaval, que pode ser conferida acima. Nas redes sociais, há declarações como “Coisa mais querida o japonês da Federal. Parabéns Polícia Federal Brasileira. Vocês são heróis.

A pergunta que se faz é: será?

Ao efetuar as prisões determinadas pela Justiça, o agente nada mais faz do que cumprir com as suas obrigações. Afinal, ele ganha para isso. Não há nada de “heroísmo” nessas ações, nem estas revelam, por si só, uma especial característica de funcionário público que possa rotulá-lo como “do bem”. O seu único mérito, ao que parece, é aparecer nos vídeos dos telejornais e nas fotos dos jornais e dos sites noticiosos. Apenas isso.

A história desse agente pode ser outra bem diferente.

Matéria publicada no site noticioso Último Segundo traça um perfil desse agente policial. Segundo o site, Newton Ishii, chefe do Núcleo de Operações da Polícia Federal de Curitiba (PR), foi preso em flagrante em 2003. Coisa boa não terá feito.

A matéria prossegue:

“Agente da PF, Newton Ishii está em todas prisões da Operação Lava Jato. Baixo, de cabelos brancos e sempre de óculos escuros, Newton Ishii, é figura garantida nas ações da Operação Lava Jato. Chefe do Núcleo de Operações da Polícia Federal em Curitiba, o agente Newton Ishii esteve presente em importantes prisões, como a do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, do empresário Marcelo Odebrecht, do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, e do pecuarista José Carlos Bumlai.”

“Alvo de piadas recentes nas redes sociais e visto como alguém que faz valer a lei, Newton Ishii foi preso com outros cinco agentes pela própria Polícia Federal em 2003, durante a Operação Sucuri, no Paraná, suspeito de integrar uma organização criminosa acusada de contrabandear grande quantidade de mercadorias para o Paraguai. À época, o Tribunal Regional Federal (TRF) negou o pedido de habeas corpus dos policiais federais presos.”

“Segundo o Ministério Público Federal (MPF), os denunciados deixavam de fiscalizar táxis e vans conduzidos por outros integrantes da quadrilha, responsáveis pelo transporte das mercadorias do Paraguai para o Brasil.”

“Processo - De acordo com o blog Expresso, da revista Época, Ishii responde a processos criminal e civil, além de uma sindicância. Ele foi reintegrado pela Polícia Federal com confiança da direção. A prisão do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) revelou um áudio em que o parlamentar teria supostamente citado o agente da PF como “o japonês bonzinho” que vende informações para revistas.”

“Piadas - A presença constante nas prisões da Lava Jato deu certo reconhecimento a Newton Ishii e alguns perfis nas redes sociais o citam em brincadeiras, como o do comediante Sérgio Mallandro, que traz uma montagem com fotos do policial e a mensagem. “Se esse japonês tocar a campainha da sua casa às 6h da manhã não abra porque você tá f**ido. Rá!!”, disse o humorista.

A Marchinha – Composta por Thiago Vasconcellos de Souza, 36 anos, em parceria com Dani Batistoni, Jabolinha e Tigrão, a marchinha homenageia o agente policial que aparece durante as prisões da lava-jato e foi inscrita no concurso de marchinhas carnavalescas da Fundição Progresso, no Rio de Janeiro. Ao Estadão (site), Thiago Vasconcellos revelou: “Achei que o japonês era o personagem perfeito para uma marchinha, um cara que ninguém conhece direito, mas todo mundo conhece e acabou virando uma personalidade emblemática”.

Delcidio se refere ao agente - O site da revista Carta Capital divulgou alguns trechos da conversa gravada pelo filho de Cerveró que ensejou a prisão do senador Delcídio Amaral, em que o agente da Federal é citado como sendo o “japonês bonzinho” que ajudaria o trabalho de fuga de um dos integrantes da quadrilha:




Herói ou bandido, você decide... 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Violência contra a mulher: como combater esse problema social

Orientações e comentários da Advogada Especializada em Direito de Família sobre a violência contra a mulher. Abordagem relacionada à crescente onda de protestos nas redes sociais, como o #meuprimeiroassédio e #meuamigosecreto

Violência contra a mulher é um grave problema social.

“Hoje, em briga de marido e mulher, todos podem e devem meter a colher. O primeiro passo para a proteção e resgate da dignidade das mulheres vítimas de violência, sem dúvida, é a informação."

Apesar de todas as campanhas de combate à violência contra a mulher e da criação de mecanismos legais para coibir esses atos, como a Lei Maria da Penha, os números ainda são assustadores quando o assunto é o feminicídio e a violência doméstica. Campanhas como #meuamigosecreto e #meuprimeiroassedio, que nas últimas semanas tomaram as redes sociais, têm despertado várias discussões em torno do assunto e alertado a sociedade para os perigos desse que, mesmo em números alarmantes, ainda é um problema ignorado por muitas pessoas.

Dados da Central de Atendimento à Mulher apontam que, em 2014, do total de 52.957 denúncias de violência contra a mulher, 27.369 foram relacionadas a denúncias de violência física (51,68%), 16.846 de violência psicológica (31,81%), 5.126 de violência moral (9,68%), 1.028 de violência patrimonial (1,94%), 1.517 de violência sexual (2,86%), 931 de cárcere privado (1,76%) e 140 envolvendo tráfico (0,26%). Estima-se que os dados reais sejam ainda maiores, já que o levantamento das estatísticas é feito com base nas denúncias, e a maioria das ocorrências não chega a ser denunciada.

É importante destacar também que a violência contra a mulher pode ocorrer de diversas formas e, para combater esse silencioso problema social, é essencial que as mulheres violentadas busquem seus direitos perante a justiça e denunciem os agressores. A advogada de Direito de Família, Larissa Franzoni, do escritório Franzoni Advogados Associados de Florianópolis/SC, destaca que, apesar do medo de represálias após fazer uma denúncia, a Lei Maria da Penha prevê proteção às mulheres em situação de risco.

“A Lei Maria da Penha prevê todo um sistema de proteção à mulher em caso de violência de gênero. As medidas que visam garantir a integridade da mulher estão relacionadas ao afastamento do agressor e à garantia do sustento da vítima”, afirma Larissa. A advogada também ressalta que, dentre as medidas protetivas que podem ser adotadas, é possível citar o afastamento do agressor do lar ou local de convivência com a vítima, a fixação de um limite mínimo de distância que o agressor fica proibido de ultrapassar em relação à vítima, a suspensão da posse ou restrição do porte de armas, se for o caso. Além disso, segundo Larissa Franzoni, é possível proibir o agressor de ter acesso ou contato por qualquer meio (seja telefone, internet, etc.) com a vítima, com familiares da vítima e testemunhas.

Violência e opressão social - É claro que a violência contra a mulher vai muito além da questão dos abusos e agressões do marido, namorado ou até mesmo um ex-companheiro. Por diversas vezes, a mulher agredida não possui conhecimento para agir e mudar sua situação e, por isso, acaba se submetendo a situações de risco no ambiente doméstico. Para Larissa, a principal forma de mudar essa realidade é a conscientização dos direitos da mulher, tão abordados em 2015 num fenômeno que está sendo chamado por muitos de “primavera feminista” (em alusão à primavera árabe, que em 2010 gerou uma onda de protestos e manifestações no Oriente Médio).

“O primeiro passo para a proteção e resgate da dignidade das mulheres vítimas de violência, sem dúvida, é a informação. Para poder se reconhecer como uma vítima de violência, para poder entender que determinadas atitudes e ações por parte do parceiro são violência, é necessário que as informações cheguem a todas as mulheres”, destaca. Larissa ainda aponta os movimentos de mulheres que se organizam em atos, protestos e nos recentes movimentos virtuais das redes sociais, como o #meuprimeiroassedio e o #meuamigosecreto como ferramentas que exercem um papel educativo fundamental. A advogada especializada em Direito de Família acredita que muitas mulheres só reconhecem que estão sujeitas à violência quando alguém relata uma experiência parecida.

Família e agressão - Uma recente pesquisa aponta que no Brasil, atualmente, a violência doméstica é a responsável por 13 mortes de mulheres por dia. Pensando no ambiente familiar, esses dados tornam-se ainda mais alarmantes: os filhos presenciam e convivem diariamente com as agressões, e essa rotina pode ter consequências negativas no desenvolvimento de crianças e adolescentes. O que poucos sabem é que a Lei Maria da Penha também prevê a defesa de dependentes de uma mulher agredida, prevendo a possibilidade de afastamento do agressor do lar, com garantia de subsistência material, seja através da fixação de alimentos ou garantindo à mulher o acesso livre à sua renda e seus bens.

“No que diz respeito ao divórcio ou à dissolução da união estável, é possível que a mulher entre com estes pedidos mesmo enquanto perdurar uma medida protetiva. A existência de uma medida protetiva não exclui o direito de se divorciar. Nesses casos, o caminho viável seria através de uma ação judicial, porque a mulher está em situação de vulnerabilidade diante do marido ou companheiro agressor”, ressalta.

Larissa ainda esclarece que no processo de divórcio ou dissolução de união estável, além da própria separação e partilha de bens, também podem ser fixados alimentos para os filhos e também para a mulher, e pode ser regulamentada a guarda dos filhos menores e os direitos de visita.

Combate à violência - Para combater a violência contra a mulher, a conscientização de toda a sociedade é extremamente importante. Muitas pessoas presenciam agressões e têm contato com famílias que convivem com o abuso mas por medo ou receio acabam não denunciando. A cultura do “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” é extremamente prejudicial para exterminar a violência doméstica no Brasil. Por isso, Larissa Franzoni acredita que as denúncias e a conscientização da sociedade podem gerar a mudança dessa realidade cruel.

“Hoje, em briga de marido e mulher, todos podem e devem meter a colher. As principais formas de denunciar, além das delegacias especializadas, são através dos disque-denúncia. A linha 180 é da Central de Atendimento à Mulher, e funciona 24h por dia. O atendimento nesta linha garante o anonimato da vítima e do denunciante, além de fornecer suporte psicológico e de atendimento à vítima. Há ainda a linha 100, que atende casos de agressões sexuais contra crianças, adolescentes, tráfico de mulheres e pornografia infantil. E também pode-se utilizar do serviço do 190, que é a linha da polícia, que presta um primeiro atendimento e encaminha para os serviços especializados”, conclui Larissa.
(fonte: Florianópolis, Santa Catarina, Brasil (DINO) 03/12/2015)


domingo, 6 de dezembro de 2015

3 de dezembro: Dia Internacional da Pessoa com Deficiência

Trabalhar com inclusão significa dignificar a humanidade, nivelar os sentimentos, dar valor ao nosso papel nesse mundo


Instituído 1992 pelas Nações Unidas, o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência tem o objetivo de promover uma maior compreensão dos assuntos relacionados à deficiência e também mobilizar a população para garantir uma vida mais digna, além da igualdade dos direitos e o bem estar das pessoas com deficiência.

Ao lado desta luta está o Instituto Olga Kos de Inclusão Cultural (IOK), que visa contribuir com a inclusão social de pessoas com deficiência intelectual, especialmente a Síndrome de Down, por meio de projetos de artes e esportes. Para isso, conta com uma equipe multidisciplinar formada por artistas plásticos, arte-educadores, psicólogos, educadores físicos, fisioterapeutas, mestres em Karate-Do e Taekwondo, profissionais multimídia e pedagogos.

“Trabalhar com inclusão significa dignificar a humanidade, nivelar os sentimentos, dar valor ao nosso papel nesse mundo. E o Instituto Olga Kos procura garantir que a pessoa com deficiência reúna condições de participar de forma mais efetiva da sociedade da qual ela faz parte”, destaca Dra. Olga Kos, vice-presidente do IOK, sobre a importância de lembrar o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência.

Ação de Inclusão - No último dia 29 de novembro, 10 mil atletas se juntaram a pelo menos duas mil pessoas entre participantes dos projetos do Instituto Olga Kos acompanhados de pais ou responsáveis na Corrida e Caminhada “Inclusão a Toda Prova”, no Circuito do Ibirapuera. A prova tem o objetivo de lembrar o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência e incentivar a inclusão social destas pessoas.

Sobre o Instituto Olga Kos - O Instituto Olga Kos de Inclusão Cultural (IOK) é uma associação sem fins lucrativos, com qualificação de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), que atende cerca de 2.500 crianças, jovens e adultos com deficiência intelectual, particularmente Síndrome de Down, na cidade de São Paulo. Fundado em 2007, tem como missão abrir canais de comunicação pela arte e pelo esporte, e, por meio deles, promover a inclusão social e cultural destas pessoas. Para isso, conta com uma equipe multidisciplinar formada por artistas plásticos, arte-educadores, psicólogos, educadores físicos, fisioterapeutas, mestres em Karate-Do e Taekwondo, profissionais multimídia e pedagogos.

As oficinas de esportes buscam incentivar a prática esportiva (Karate-Do e Taekwondo), estimular o desenvolvimento motor e melhorar a qualidade de vida dos participantes. Já as oficinas de artes buscam divulgar a diversidade cultural e artística de nosso país, expandir o acesso à cultura, incentivar o exercício da arte e desenvolver os canais de comunicação e expressão dos participantes, por meio dos programas: “Pintou a Síndrome do Respeito” e “Resgatando Cultura”.

Todas estas atividades procuram garantir que a pessoa com deficiência intelectual reúna condições de participar de forma mais efetiva da sociedade da qual ela faz parte. Além disso, o IOK desenvolve a articulação de redes de apoio para geração de renda e inclusão no mercado de trabalho, por meio de parcerias com instituições que promovem o aprendizado de habilidades profissionais.

(Fonte: São Paulo – DINO- 03/12/2015)

domingo, 15 de novembro de 2015

Rádio e TV no Brasil – uma terra sem lei

Por Marcelo Pellegrini, na revista Carta Capital

"Uma série de ilegalidades se embrenham na base do sistema de rádios e TVs no Brasil, afrontando a Constituição e gerando prejuízos para a liberdade de imprensa, conforme aponta o relatório da ONG internacional "Repórter Sem Fronteiras". A lista de ilegalidades combinada com a frouxa fiscalização por parte do governo federal resulta no surgimento de oligopólios e em uma situação de pouca diversidade de vozes e ideias, algo danoso à democracia e à representação dos diversos grupos que compõem a sociedade.

Segundo a Constituição, cabe à União, por meio do Ministério das Comunicações, conceder a empresas privadas, por meio de concessões, o direito de possuir um canal de rádio ou televisão no Brasil. Essas regras existem porque, ao contrário de jornais, revistas e sites, cuja existência é, em tese, ilimitada, há um limite físico para a existência de emissoras de rádio e televisão, determinado pelo espectro das faixas de frequência.

Para ter o direito à concessão, as emissoras devem vencer um processo licitatório e cumprir uma série de regras em relação a seu conteúdo e programação, a fim de garantir a pluralidade e a diversidade da sociedade brasileira. A fiscalização do cumprimento dessas regras, no entanto, nem sempre é realizada pelo Ministério das Comunicações, conforme aponta o relatório do "Repórter Sem Fronteiras", o que contribui para falta de representação de minorias nas telas nacionais.

Diante do descaso do governo, o setor de rádio e televisão no Brasil é praticamente uma terra sem lei, realidade que o Ministério Público Federal e organizações da sociedade civil, como o "Intervozes", parceiro de "CartaCapital", tentam mudar.

A seguir, conheça e entenda alguns dos principais problemas nos quais estão envolvidas as emissoras de rádio e televisão brasileiras.

1 - Concentração de mídia e a falta de conteúdo local

Em conjunto, a Constituição e o Decreto-Lei 236, de 1967, proíbem a formação de oligopólios na radiodifusão e colocam barreiras na veiculação de conteúdo unificado em todas as regiões brasileiras, como maneira de garantir a produção local e diversificada de conteúdo. A realidade mostra que essas exigências não são cumpridas.

Atualmente, os grupos Globo, SBT, Record e Band dominam 69,4% da audiência televisiva. Os números derivam do fato de esses canais terem empresas afiliadas que, em sua maioria, retransmitem e reproduzem a grade de programação das empresas-sede, as chamadas cabeças-de-rede. Por meio das afiliadas, a Globo, maior cabeça-de-rede do Brasil, transmite sua programação para 98,6% do território nacional, seguida por SBT (85,7%), Record (79,3%) e Band (64,1%).

Apesar da proibição de que concessionárias estejam "subordinadas a outras entidades que se constituem com a finalidade de estabelecer direção ou orientação única", as cabeças-de-rede têm significativo domínio sobre a produção de conteúdo. Um estudo do "Observatório do Direito à Comunicação", de 2009, mostrou que 90% dos conteúdos veiculados pelas afiliadas são produzidos pela cabeça-de-rede.

Na prática, o domínio se dá por meio de contratos entre as cabeças-de-rede e as afiliadas que driblam as regras sobre a quantidade de geradoras de sinal de grande alcance permitidos por empresa de televisão: são cinco por proprietário em todo o País, sendo no máximo duas por Estado. Como o Ministério das Comunicações não estabeleceu regulações a respeito da propriedade por pessoas físicas e jurídicas, há casos de pessoas e empresas que extrapolam o limite do decreto de 1967, controlando mais de cinco geradoras nacionalmente e mais de duas por estado.

2 - Posse de veículos de mídia por políticos

O artigo 54 da Constituição Federal proíbe deputados e senadores de possuírem empresas que firmem ou mantenham contratos com autarquias, empresas públicas ou concessionárias de serviço público. O último caso enquadra as emissoras de rádio e televisão, mas ainda assim mais de 40 deputados federais e senadores controlam diretamente pelo menos uma emissora de rádio ou televisão em seu estado de origem, fenômeno conhecido como coronelismo eletrônico.

Desde 2011, tramita no Supremo Tribunal Federal uma ação, elaborada pelo Intervozes e pelo PSOL, que pede a declaração de inconstitucionalidade à concessão de outorgas de radiofusão a emissoras controladas por políticos. Além do artigo 54 da Constituição, a ação também entende que a prática do coronelismo eletrônico viola o direito à informação (artigos 5º e 220); a separação entre os sistemas público, estatal e privado de comunicação (art. 223); o direito à realização de eleições livres (art. 60); o princípio da isonomia (art. 5º); e o pluralismo político e o direito à cidadania (art. 1º).

3 - Vendas de concessão: o caso MTV

A Lei 4.117/62 e o Decreto 52.795/63 proíbem, segundo entendimento do Ministério Público Federal, que uma concessão pública de radiodifusão seja repassada a terceiros sem uma nova licitação. Isso porque canais abertos são um serviço público e, por isso, o uso das frequências deve ser disputado em concorrência aberta.

Ainda assim, em dezembro de 2013, o "grupo Abril" vendeu a frequência que abrigava a MTV Brasil para a empresa "Spring" por [290 milhões de reais]. Sob novo comando, o canal aberto tem toda a sua programação ocupada por conteúdo produzido pela "Igreja Mundial do Poder de Deus".

Para o MPF, tratou-se de negociação inconstitucional. "Uma empresa que é concessionária de um serviço público possui duas opções: explorar o serviço ou restitui-lo para a União. Nesse caso, o "grupo Abril" vendeu o direito de explorar o serviço para outra empresa, o que entendemos ser inconstitucional", afirma o procurador Pedro Antonio de Oliveira Machado, do MPF-SP. Segundo ele, a controvérsia envolve o uso da frequência, e não a venda da marca MTV, que já foi devolvida à empresa proprietária e continua sendo usada na TV fechada. Atualmente, o MPF recorre de um parecer negativo da Justiça a respeito de uma ação cautelar sobre o caso. Outra ação que visa anular a venda da concessão ainda está em desenvolvimento.

4 - Subconcessão 

A venda de espaço de programação para terceiros, a chamada subconcessão, é outra ilegalidade. O arrendamento de parte da programação é prática comum entre as emissoras de tevê e ocorre sob a vista grossa do Ministério de Comunicações. De acordo com o mais recente levantamento sobre o tema, feito pelo "Intervozes" em 2014, a Band vendia 19% de sua programação, a Record, 21%, a Gazeta, 23%, RedeTV, 50% e Rede 21, quase toda sua programação: 92%. A maioria desses espaços são vendidos para igrejas, prática que é alvo de uma ação do MPF.

As emissoras alegam que a venda de espaço em sua programação não se caracteriza como subconcessão, mas como uma forma de publicidade. Entidades da sociedade civil, contudo, refutam esse argumento afirmando que, mesmo a publicidade, com essas proporções de ocupação da programação, seria ilegal. O fundamento para isso está no "Código Brasileiro de Telecomunicações", que estabelece limite à publicidade comercial em cada canal de televisão. Segundo a lei, o tempo destinado à publicidade comercial não pode ultrapassar 25% da duração total da programação diária.

5 - Descumprimento do percentual de conteúdo educativo na programação

O Código Brasileiro de Telecomunicações (CBT) determina que as emissoras de radiodifusão destinem ao menos 5% de sua programação para a transmissão de notícias e reservem 5 horas semanais para programas educacionais. Muitas empresas, contudo, não respeitam esses parâmetros.

Produzido em 2014 pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), o "Informe de Acompanhamento do Mercado da TV Aberta" revelou que a categoria "Entretenimento" ocupou 49,4% das grades de programação da TV aberta de São Paulo, seguida pelos grupos "Outros" (20,1%), que engloba os programas religiosos; "Informação" (19,3%), e "Publicidade" (7,7%, sem considerar comerciais e chamadas). O grupo "Educação" aparece com 3,5%.

O mesmo levantamento apontou a inexistência de programas educativos na Record e no SBT. Na Band e na Rede TV!, menos de 1% da programação era dedicada à educação. Na Rede CNT e na TV Gazeta, eram menos de 2%. De acordo com a Ancine, o percentual mínimo era respeitado somente pela Globo (5,6%) e pelas emissoras públicas: Cultura (9,2%) e TV Brasil (12,5%).

6 - Emprego do veículo para a prática de crime ou contravenção

Uma pesquisa da "Agência de Notícias dos Direitos da Infância" (Andi), realizada em 2015, em parceria com o "Intervozes", o Artigo 19 e o Ministério Público Federal, verificou que o conteúdo de programas policialescos, veiculados pelas principais emissoras do país violam pelo menos 12 leis brasileiras e 7 dispositivos multilaterais em vigor no país, como a Constituição e a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Apesar das diversas e reincidentes infrações, o Ministério das Comunicações adota uma postura omissa em relação à fiscalização desses programas. O exemplo mais recente é a denúncia, encaminhada pelo coletivo "Intervozes" ao ministério, sobre a transmissão, ao vivo, de uma perseguição policial a dois suspeitos, que terminou com um deles sendo alvejado pela PM. As imagens foram veiculadas pela Rede Record e pela TV Bandeirantes de São Paulo.

No programa "Cidade Alerta", da Rede Record, o apresentador Marcelo Rezende fez declarações que afrontam os Direitos Humanos e a legislação brasileira, como “atira, meu filho; é bandido”. Apesar disso, o Ministério das Comunicações limitou-se a dizer que analisa a denúncia, mas que o Poder Judiciário deveria ser procurado em busca de reparação."


FONTE: escrito por Marcelo Pellegrini, na revista CartaCapital, com informações da cartilha "Caminhos para a luta pelo direito à comunicação no Brasil", produzida pelo "Intervozes". Transcrito no "Blog do Miro"(http://altamiroborges.blogspot.com.br/2015/11/radio-e-tv-no-brasil-uma-terra-sem-lei.html).