Guilherme
Scalzilli
Nos próximos dias o STF (sempre ele) julgará se o Ministério
da Educação pode distribuir livros de Monteiro Lobato que apresentem passagens
discriminatórias. A decisão é previsível, pois algumas obras de Lobato carregam
trechos flagrantemente ofensivos aos negros. E o escritor, além de racista
assumido, era defensor da eugenia.
Não parece razoável divulgar preconceitos com dinheiro
público, num programa oficial, mesmo acompanhados de instruções pedagógicas.
Independente das qualidades estéticas ou da importância histórica dos livros,
sua necessária contextualização escapa aos limites do ensino fundamental. Por
isso eles deixam de ter o caráter educativo que justificaria sua inclusão nos
“cânones” ministeriais.
Mas seria prudente embasar o veto apenas nesse raciocínio
simples e pragmático. Recorrer ao Estatuto da Criança e do Adolescente, como
fazem alguns comentaristas, transfere para o assunto uma série de implicações
desnecessárias e, a rigor, incabíveis. Além disso, cria novos pretextos
argumentativos para canetadas censórias que fazem do ECA um instrumento de
higienização moralista da cultura. Semelhante raciocínio vale para as propostas
de intromissão (correções ou cortes) no texto original de Lobato.
Também existe boa diferença entre delimitar as fontes
literárias endossadas pelo Estado e aquelas difundidas por escolas
particulares, eventos privados, publicações, etc. Tentativas de “banir”
Monteiro Lobato devem ser rechaçadas com a mesma virulência que se teria caso o
atingido fosse, por exemplo, William Faulkner. Qualquer produção intelectual é
legítima e passível de aproveitamento didático, a partir de certa idade e em
ambientes reflexivos apropriados.
Causa certa estranheza que ninguém proponha a adoção de
romances lobatianos livres de menções
raciais pejorativas. A demonização do autor a partir de sua biografia gera
simplificações tolas e contribui para animosidades que, num golpe de
revanchismo, viram patrulhamento. Os defensores fervorosos da distribuição dos livros
de Lobato se baseiam nessa vitimização fácil para amenizar o constrangimento
com sua própria tolerância, por décadas, ao escancarado teor racista do
escritor.

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